Hoje é Natal e há um ano Tito chegou aqui em casa, percorreu mais de quinhentos quilômetros para chegar. Nascido no sertão, veio para a capital. Em poucos dias acostumou-se à nova rotina, sem reclamar. No início, habitava a varanda, principalmente na hora do sol à pino, talvez porque lembrasse da vida na rua que levava em seus primeiros meses de vida. Depois, foi conhecendo os outros cômodos e hoje sua imagem compõe o ambiente da casa, como se sempre tivesse vivido aqui.

Ele levanta-se junto com os pássaros e seres da manhã, antes do sol acordar, espreguiça com a beleza habitual do gesto. Sai da poltrona, onde acostumou-se a dormir no quarto e vai para outros lugares da casa, às vezes dorme um pouco mais e levanta-se junto comigo, parece ter sincronizado os nossos tempos e rotinas.

Acompanha-me na hora do café, fareja o que vou comer e deita-se numa floreira que era hábitat de uma planta, mas agora só há as raízes e a terra, seu substrato. Ele contempla a natureza ao redor, ao menor som de pássaros, os instintos entram em ação. Qualquer ruído o faz sair do sono rem, porém em instantes continua a dormir. Sabe como ninguém reunir atenção e leveza, batizei-o de sábio, anos-luz na frente de tantos humanos que procuram cultivar esses estados de espírito. Chaves também o fazem sair do modo dorminhoco, porque deseja sempre passear e não perde a oportunidade ao ver uma porta aberta. Talvez seja por isso que sempre mia quando chego e vai me receber.

Tito passa boa parte do dia em estado meditativo, às vezes o chamo e ele não responde, nada o tira da plenitude. Em outros momento, olho para ele e o sinto enigmático, a postura da esfinge lhe é tão natural, tenho certeza que fala comigo. É meu companheiro nas horas de estudo e escrita. Discreto, sua presença às vezes não é notada e sai sem avisar, concilia independência e presença como ninguém.

Tem os sentidos muito aguçados e cheira tudo o que trago em sacolas de compras, também põe as fuças em papéis e livros. Aproveita cada metro da casa, conhece cada canto, deve ter um mapa mental dos afetos ambulantes por cada cômodo. Esses dias, usufruiu de um lençol recém-comprado e já percebi que aproveita as coisas mais do que eu. Gosta de inaugurar tudo, ao menor sinal quando vou forrar a cama, já está lá.

O que mais admiro é que vive no presente, sentindo cada pequena coisa: cheiros, gostos, sensações táteis e sons. Tudo é motivo de diversão, um mosquito no ar, uma bolinha de papel amaçada vira brinquedo, coisas que nós menos imaginamos, caixas de papelão, então, são um deleite.

Natal é (re)nascimento e eu (re)nasço a cada dia com a convivência felina e alegre. Gratidão.