Mãe, já comprou a cartolina e o elástico? A professora pediu para levar sexta, tem que ir na papelaria. Ô garoto ansioso, já disse que vamos hoje à tarde, lembra? Lafayete não conseguia entender o tempo dos adultos, para ele era uma eternidade e já podiam ter comprado esses materiais há mais tempo, emendava uma pergunta na outra. Mãe para que serve uma máscara? Para a gente se esconder? Também, filho, mas com uma máscara dá para ser muitos: monstro, vampiro, branca de neve e chapeuzinho vermelho.

Mas por que só pode usar no carnaval? Porque a gente pode se transformar no que quiser nessa época do ano: bailarina, fadinha, bruxa, fantasma. Pois eu queria usar o ano inteiro. Ele morava num casarão velho no centro da cidade, rua das Acácias e ia para a escola a pé todos os dias, acordava cedo depois dos gritos da mãe, sai da cama menino, daqui a pouco toca o sino da escola, de casa dava para ouvir a sirene. Parece que todas as escolas tem a mesma sineta e o toque é aquele desde os tempos dos avós. Ia para o banheiro, remelas nos olhos e bocejando, às vezes tropeçava nos móveis, tamanha era a vontade de ficar nas cobertas, mas a mãe não deixava.

O cômodo ficava no final do muro, como em toda casa velha, dois quartinhos, o do lado esquerdo ocupado pela privada e no outro havia um chuveiro. Muitas plantas na frente: samambaias, trepadeiras, cactos, era o jardim secreto de Lafayete, onde brincava de agricultor, cultivando feijões e vendo os pés crescerem, folha a folha, também já foi químico, macerando as folhas para fazer remédios para os super-heróis de brinquedo e sentindo o aroma das flores, cultivando essências.

Depois do banho, um café rápido e hora de partir, no caminho cumprimentava os vizinhos que lhe conheciam desde os primeiros choros e palavras balbuciadas. Bom dia, seu Joaquim! Oi, menino já vai para a aula. Até mais tarde. Levava a cartolina e os materiais que a professora havia pedido para fazer a máscara. Na aula de artes, começaram os trabalhos, desenhar o modelo, recortar o molde e depois enfeitar, o que escolheria? lantejoulas, glíter, bolinhas de papel? pode ser tudo? Depois que todos terminaram, houve o baile de máscaras e a brincadeira era saber quem era quem? Dançou e brincou até não aguentar mais.

Na volta para casa, as recordações daquele dia: um balão de festa e a máscara, sorriso largo no rosto e a vida a passar. É carnaval.