Lugares de montanhas são sempre um destino desejado por mim e me levaram a conhecer a Serra Gaúcha, mas eu desconhecia as delicadezas que ela me revelaria. São Francisco de Paula, ou São Chico, para os mais afetuosos, é uma cidade, eu diria uma vila, encravada na serra, me recebeu com uma névoa que deixou o tempo ainda mais frio.

Chuva e baixas temperaturas me fizeram procurar abrigo em uma livraria de nome poético: Miragem. A cena tornava real esse nome: no meio do mundo, aquela cidadezinha de nevoada e os livros ali, naquele casarão com estantes de madeira, namoradeiras e cadeiras para leitura. Ainda havia um sebo de livros, um café e venda de objetos de decoração, no mesmo espaço.
Tudo foi pensado em detalhes, da porta de entrada à decoração do ambiente. Passeando pelas estantes de livros, escuto uma voz falando gauchês: Barbaridade tchê! Era uma senhora e depois descobri que era a dona da livraria. Troquei uns ‘dedos de prosa’ com ela, perguntou-me de onde era, pediu-me para dizer aqui em Recife que em São Francisco de Paula tem livraria. Ela era uma daquelas pessoas que nos inspiram, professora aposentada, decidiu criar a livraria para levar conhecimento e cultura a sua cidade natal.

São Chico tem um ar bucólico, comum aos lugares de montanha e lá ainda há um lago, numa área grande, ladeada por grama e bancos esperando a chegada de alguém. No tempo em que fiquei lá,não passou quase ninguém e um silêncio me acompanhava, dando aquela sensação de como é bom percorrer o mundo. Na frente do lago, o hotel Cavalinho Branco, bonito nome para um hotel e que vista!

Outra cidade serrana que ainda conserva esses ares de lugar pequeno, é Canela. Lá, pude ver mulheres vendendo pipoca na praça e um velho sentado num banco sentindo a tarde passar, através deles percebo que a vida é simples e praças são lugares para se dar conta disso.

A pequena Morro Reuter, também na Serra Gaúcha é um desses lugares, onde a gente ainda vai numa sorveteria que possui fabricação caseira e vê um carro de som passar, falando da quermesse da igreja e que o circo está na cidade para deixar as crianças mais felizes. O moço do carro não sabe, mas quando ele passou, eu fui no sertão e voltei - eram as propagandas que escutei na infância .

Nesses cantos do mundo, penso: o tempo pode parar aqui, só um pouquinho?