Tem sempre uma construção ou reforma por perto, slogan que resume o ambiente sonoro. Junto com elas vem os ruídos. Não sei bem quais as máquinas e objetos que produzem esses sons, mas certamente serão martelos, furadeiras, maquitas e outros aparelhos que farão companhia aos seus tímpanos, por pelo menos alguns instantes.

Acordando cedo, percebo como os sons vão se modificando ao longo do dia. Uma manhã dessas, saí de casa, acompanhada por sons de pássaros e de outras espécies animais não identificadas. Fazendo o caminho de volta, era bem mais difícil ouvi-los, pois muitos ruídos vindos das reformas dos prédios vizinhos competiam com eles.

Quando eu morava na Boa Vista, no centro da cidade, esses barulhos também eram companhias constantes.
Parece que o desejo de reformar os apartamentos tomou conta da cidade, então há uma soma de barulhos, os do seu prédio e aqueles que você não consegue identificar de onde vem, mas incomodam. Essa semana, já passava das dez da noite e esses sons insistiam em continuar.

Ao invés disso, eu preferiria sempre escutar o toque do sino do homem do picolé, a fala das crianças das redondezas brincando à tarde, o grito do vendedor de jornal e do vendedor de vassouras, o som do carro do gás, a voz da mulher que vende cocada. A propaganda das promoções da quitanda do bairro, as pessoas conversando, enquanto andam na calçada, o barulho do vento roçando nas folhas das árvores, o som de papéis no chão, arrastados pelo ventania na rua deserta e tantos outros sons que passam onde moro e não ouço. Eles me falam como o cotidiano é repleto de pequenas cenas diárias, cheias de personagens.

Saio de onde estou e vou à janela para contemplá-las mais de perto.Esses sons se juntam na minha imaginação ao barulho dos cascos do cavalo puxando a charrete, que levava o leite da minha vizinha, quando eu era uma criança numa rua do sertão.
Agora, enquanto escrevo, a tarde se despede, há fartura de sons de pássaros e um bando de morcegos, fazendo sons agudos, de alta frequência, que lhes são peculiares. Eles avisam que estão despertando. Já é noite e se juntarão aos grilos, sapos, timbus e tantos outros animais que compõem os sons da noite e da madrugada.

Você dorme. Eles estarão bem próximo, mesmo que não perceba.