Escrevo e enquanto faço isso, o cheiro de bolo no forno incensa a casa, invade as narinas e traz memórias afetivas dos bolinhos de caco, feitos nas batedeiras de brinquedo, assados pela mãe no fogão, lá no sertão, chamamos chapéu de couro.

Lembranças das lambidas na forma com o resto da massa que sobrava, o gosto de farinha e chocolate na boca; dia de fazer bolo era um acontecimento, o forno do fogão que também servia de armário, quando não estava sendo usado, era desocupado. Recordações da boleira da tia, a base amarela e o cobridor de plástico fosco, dentro a surpresa mais esperada, um bolo de trigo ou mesclado com chocolate, saboroso e delicado para o paladar, desmanchava fácil na boca. Um saudoso bolo xadrez, também é uma doce memória afetiva de outra vizinha querida. Numa época sem batedeiras, a alquimia dos sabores e cheiros era tecida com a colher de pau na bacia.

Essas reminiscências tem chegado com toda força e leveza nesse ciclo de quarentena, porque era um tempo em que no sertão, nós ficávamos muito em casa, crianças, adultos e velhos, antes da virada do século XXI.

Para fazer bolo, hoje, uso batedeira e forno elétrico e acho ótimo, as maravilhas da humanidade, as descobertas e facilidades dos nossos tempos, antes esses eletrodomésticos eram muito caros, na verdade, não sei se eram tão caros ou não tínhamos dinheiro para comprar.

Escrevo e enquanto faço isso, tenho cuidado para o bolo não queimar, não passar do sabor e textura agradáveis ao paladar. Eu queria que esse bolo tivesse ficado pronto para a hora do lanche, mas já são seis horas e gosto de lanchar próximo ao entardecer, tudo bem, imprevisibilidades fazem parte, digo ao ego.

Fazer um bolo para o lanche é algo raro nos velozes tempos que vivemos; ou vivíamos? (diálogo interno, filosofo), mas já que temos que ficar em quarentena, as artes da casa estão ganhando espaço e construindo histórias por todos os cômodos e assim vamos aprendo a viver com o Sr. Kairós.

E terminei o texto. Hora de degustar