Acorda, é hora de limpar a calçada, não é outono, mas há folhas caídas. No momento as mulheres não se vêem, estão em endereços diferentes, embora no mesmo bairro. Talvez nunca tenham trocado uma palavra e realizam a mesma tarefa, o gesto desenhado pelo movimento dos braços para a frente e para trás e as vassouras nas mãos.

Tão comum na vida em casas, enquanto é realizado se conversa com o vizinho e com alguém que está passando e se pensa na própria vida. Quem sabe assim, também se deixa fluírem os pensamentos. O som se repete em vários lugares, quando vêm os primeiros raios de sol, soa o barulho da vassoura no chão e o movimento de vai e vem. É o zelador do prédio vizinho, juntando-se aos varredores da região.

O rito matinal de limpeza diz que é preciso cuidar das calçadas, da própria casa, dos terreiros e quintais. Limpar o lar, colher o lixo produzido por nós, deixado nos cômodos, areia, terra,pelos, cabelos caídos, coisas que trazemos da rua, fragmentos não identificados. A poeira que o tempo foi trazendo depositada nos móveis, nos objetos, nas cabeceiras, pede renovação.

Na rua de casa, passa um homem que vende vassoura de piaçava, palha natural. Escuto quando ele anuncia o produto, vem com chapéu na cabeça e um tanto de objetos a serem vendidos. No sertão, as ventanias trazem muita terra e natureza morta, desenham-se rabiscos na poeira do chão, as letras iniciais dos nomes dos namorados e nos para-brisas dos carros escrevem-se frases marcantes em cima da terra depositada.

E mais um ano vem, que o varrer carregue o que precisa ir, feito poeira no vento.