Nesse período de quarentena, tem chegado aos meus pensamentos muitas memórias de um velho reino encantado da infância em algum lugar do sertão; esse não é um texto saudosista e não estou aqui para dizer que o passado é melhor do que o presente.

Cada tempo tem suas belezas e sombras e bom mesmo é manter-se conectado ao hoje. Uma das jornadas mais difíceis da vida é manter-se no aqui e agora, porque nossa mente é dispersa e gosta de vagar pelo passado e pelo futuro, esquecendo do presente.

Bem, mas falaremos então dessas lembranças que estão se acordando em algum lugar da minha memória. Hoje, discute-se muito sobre minimalismo, como estilo de vida, perspectiva existencial e também como conceito na arquitetura, ter em casa apenas o necessário, móveis, objetos e inclusive, também roupas e bens materiais.

Atualmente, temos muitas possibilidades de ocupação do tempo: programação em canais abertos e pagos, séries, filmes, diversos aplicativos em celular, com muitos álbuns de músicas, podcasts, isso sem falar nos conteúdos disponíveis na internet: uma infinidade de sites, com conteúdos os mais variados e plataformas com artigos científicos. Imaginem, que quando eu era criança fazia pesquisas na Barsa ou em alguma enciclopédia, nem de longe imaginava o que seria pesquisar na internet. Mesmo com tantos estímulos, nunca se ouviu falar tanto em falta de sentido da vida ou às vezes tédio, independente da pandemia que estamos vivendo.

Quando olho para a criança no sertão, que ainda habita em mim, lembro que ela tinha uma televisão que sintonizava no máximo dois canais, globo e sbt, às vezes com chuviscos na imagem, uns poucos discos de cantoras do público infantil, Xuxa não podia faltar, além de um saco de brinquedos e um quadro de giz, onde foi alfabetizada e brincava de professora. Também tinha uma bicicleta Monark, o gosto de andar nas magrelas alimenta até hoje.

Nessa época, havia bem menos estímulos do que dispomos atualmente, mas tinha um muro com muitas plantas, quintal da imaginação, brincadeiras na rua e não havia medo de assaltos, tinha vizinhas muito queridas com casas separadas por um muro, por onde trocávamos bolo, frutas e telefone. Sim, pasmem, mas um aparelho telefônico era raridade, não estou falando de celular, esse só vim ter na adolescência, então quem não tinha telefone em casa ou falava utilizando um orelhão, telefone público ou então pedia a um vizinho para fazer uma ligação. Também havia cabines telefônicas da Telpe em algum ponto da cidade, uma verdadeira relíquia.

Não me lembro de que o tédio era uma constante ou ficar ávida por fazer milhares de coisas, hoje no confinamento que estamos vivenciando, uma das principais reflexões que tem chegado é a velha máxima de que realmente precisamos de pouco para viver.