De tanto andar a pé, alguns rostos se tornam familiares e vocês passam a se cumprimentar pelo olhar ou um discreto sorriso. Depois de muitos encontros, se transformam em personagens, como o velho das bochechas rosadas, que vai à missa quase todas as tardes, mal escuta as badaladas do relógio e sai de casa a poucos metros da igreja, sempre com antecedência.

Já o encontrei em uma avenida, carregando sacolas de compras da frutaria que também frequento. Ele tem um andar peculiar, passos lentos, parece pender de um lado para o outro enquanto anda. Nunca está acompanhado e já deve ter vivido uns oitenta verões.

Também batizei de a senhora da cadela branca, uma mulher que passeia com a cachorra em horários nada convencionais, já as encontrei por volta das duas da tarde, no pingo do sol, para mencionar uma expressão da nossa terra e fiquei me perguntando, como aguentam andar no sol uma hora dessas? Em outro momento, a vi sentada numa das esquinas acariciando o animal de estimação. Ela me lembra muito uma pessoa que conheço e pelas feições, pode ser mãe dela, mas me falta coragem para fazer essa pergunta.

Outra que entrou na coleção de tipos do bairro, foi uma velha esguia, cabelos curtos, grisalhos, a primeira vez que a vi foi na festa da paróquia. Anda muito, se estou afirmando isso, é porque eu também devo caminhar demais, porque a encontro sempre, em ruas desertas e avenidas mais movimentadas.

Essas pessoas cruzam o seu caminho e suas retinas começam a se acostumar com a imagem delas, você passa a imaginar a vida que podem levar e ter vontade de colocá-las no papel, como estou fazendo agora, quer dizer, na tela do computador, é que, às vezes esqueço. Passam a compor a legião dos personagens da vida comum-de-cada-dia e habitar sua imaginação, você nutre, inclusive, certa afeição por elas mesmo sem ter trocado uma palavra, sequer.

Esses tipos fazem você reconhecer o lugar onde habita e junto deles você sente que pertence a um canto do mundo. Calçadas, esquinas, ruas desertas, movimentadas e avenidas há em todas as partes, mas essas pessoas conferem identidade àquele lugar, que você pode chamar de seu. Ainda mais nesses tempos em que, às vezes tudo é tão globalizado e igual em vários lugares do mundo. Teria outros personagens sobre os quais eu poderia escrever, mas isso é assunto para outra crônica.