Tocava um brega rasgado no centro da cidade, hit nas rádios nos anos 1990, o som ecoava no silêncio das ruas, atmosfera de Recife em resto de dia. No asfalto, poucos pneus e pés, tão diferente da semana, em que se passa quase batendo pelos vendedores de ouro, rosas e frutas, todos nas calçadas. Peguei um táxi, com minha veia investigativa de cronista, pergunto: Sempre tem gente aqui, bebendo? Sim, senhora, tomando umas cervejas em pé. É mesmo, não tem mesas e riu da minha cara.

Ele era um sujeito engraçado, os comentários esbanjavam espontaneidade, tinha aquele jeito de gente que sabe levar a vida, que me encanta pela simplicidade. Comentou do remédio que foi comprar em uma farmácia e achou muito caro. Foi num bairro de gente rica, sabe moça? Emendava uma história na outra, disse que uma vez levou uma cliente no hospital e cobraram até pelos esparadrapos e gases. Foi mesmo? É um absurdo né!

Quando cheguei em casa, perguntou: a senhora foi até lá, só para comprar essas plantas? Eu não ia, não, disse às risadas. Onde eu moro não vende, você acha longe? Ele achava distante da Avenida Dantas Barreto às Graças, mas com um pouco de disposição dá para ir a pé, nas caminhadas peripatéticas, seria mais uma para minha coleção de andanças, vou por na lista.

Fato é que eu simpatizei com aquela figura, tanto é que ia falar das plantas e estou, até agora falando nele. Bem, as plantas que ele não compraria, estão na varanda, são aguadas diariamente, pois nesses dias de evaporação intensa carecem de água e sofrem. Uma das que comprei, pensei que ia morrer, as folhas foram murchando e estavam arriando, permanece viva. Eu já estou acostumada a perder alguns vegetais, uma vez inventei de ter uma hortênsia em casa, encantada com os tons de lilás e com a imagem dela, que fiquei depois de conhecer a Serra Gaúcha. Custou caro e morreu em poucos dias, mas tentei.

As outras plantas parecem bem adaptadas e estão resistindo ao calor dos 30 graus, registrados por um termômetro de parede, que me avisa quando está pegando fogo. Tem feito muito sol na terra do Capibaribe e esses seres vivos precisam resistir aos ataques de um felino que também habita a varanda e com os quais dividem espaço, eles se entendem, natureza.