Já perdi as contas de quantas vezes percorri essa rota, em vários horários de dia e à noite, mas sempre que passo sou surpreendida por cenas que saltam aos olhos: viandantes com sacos nas costas, tímidas barracas na beira da pista armadas de modo rústico com paus e um pano como cobertura,que faz sombra para os cactos da vegetação local e para o mel fabricado pelas abelhas da redondeza, que viram produtos a serem comprados pelos que passam.

As rádios fazem companhia na viagem, os comunicadores locais são verdadeiros personagens com as vozes típicas de locutores, divulgam que fulano perdeu a carteira e quem encontrar será bem gratificado. Tão bom saber que as pessoas ainda confiam nas outras. Em outro instante, escuta-se um ouvinte falando do buraco na rua 23 e pede providências da prefeitura, outra notícia é o anúncio do novo secretariado que irá compor a gestão municipal.

E tem de tudo na estrada, prostíbulos disfarçados de bares, pessoas pedindo carona, placas desbotadas pelos anos que você conhece desde criança e orientam seu caminho. Cachorros e gatos transitando com seus tutores para chegarem aos destinos pretendidos, homens vestidos com terno e gravata com a bíblia embaixo dos sovacos em pleno meio dia. O nível de evaporação local é quase inexistente, mas a elegância é a tônica que guia os dias.

Há lugares perdidos no tempo, que mais parecem miragens, de onde saltam nas retinas crianças descalças brincando nos terreiros sob o sol quente, cadeiras de balanço sem ninguém enfeitando a frente das casas e sempre há igrejinhas pintadas de amarelo, algumas só avistamos a torre. Também há pessoas conversando embaixo de algarobas. Nada mais sertanejo do que ficar sob a sombra dessa árvore nativa, vendo a vida passar.

Uma pausa para alimentar as barrigas e inicia-se uma conversa com uma nativa dessas terras em que tudo é tão familiar: você é de onde? Salgueiro, ah eu moro em Arcoverde e emenda um assunto no outro, você conhece Dr. Fulano? Sim, é filho de seu Beltrano. Eu fui para o casamento dele. Nessas horas você se dá conta de que as distâncias desse mundão não são tão grandes como no mapa e que há rotas afetivas marcadas por esses encontros.

Todos esses acontecimentos me fazem sentir que estou saindo da metrópole para chegar ao interior, onde tudo vira acontecimento na rádio, nas calçadas, na língua das gentes. As distâncias são curtas e os povoados trazem beleza às paisagens, casas perdidas no meio do tempo, algumas em ruínas na beira da estrada, destelhadas, as paredes com os tijolos a mostra. O céu limpo contornando o horizonte emoldura o retrovisor do carro e tudo parece mais claro, dentro e fora de você.

A terrinha, uma parte grande de mim: Pasárgada.