Lá vai o vendedor de algodão doce, levar alegria para as crianças, bolas de assopro penduradas na ponta da vareta que segura os sacos com os flocos rosa, parecem nuvens e derretem na boca, escorregando pela garganta e tornando a vida doce-leve.

Ele chegou atrasado na missa de Natal, a praça estava cheia, mas não precisava fazer esforço para ser notado, os algodões destacavam-se, acima das cabeças das pessoas e os sacos pendurados caminhando pela praça.

Algumas crianças teriam que esperar até o final, para deleitar-se com aquele alimento, depois de aperrearem os pais e sucessivas vezes escutarem: não é hora, menino! Só quando terminar. As cadeiras espalhadas por todos os lugares, acomodando as pernas cansadas e alguns ouvidos atentos ao sermão, outras pessoas estavam ocupadas em ver as roupas recém-saídas do guarda-roupa, compradas para a ocasião e os que usavam trajes que moravam há décadas no armário e saíam para a rua nessa data.

Na porta lateral da igreja, um casal de irmãos fazia daquilo uma grande brincadeira e sacudia a bata dos coroinhas, dando gargalhadas e correndo pelos cantos. Os pais diziam: comportem-se crianças, mas para eles a diversão era o limite.

Naquela noite, alguns cachorros haviam fugido do canil e vagavam pela praça, chegaram no momento em que todos estavam dando o abraço da paz, uns latiam com força, uma senhora se assustou e foi acalmada pelo filho. Outros passavam despercebidos por aquela gente, silenciosos, os olhos distantes, o rabo balançando, as fuças farejando por comida.

Betina era uma daquelas da multidão, no seu trigésimo natal, havia saído cedo, para não perder o horário. Todos os anos, costumava ir à missa, contrariando a família que preferia ficar em casa, assistindo a programação natalina na televisão.

Observava os cães e um deles acompanhou-a até o carro. Ela havia feito a feira do mês naquela tarde e comprado ração para os vira-latas que criava. No coreto um casal renovava os votos de amor, na praça, velhas se cumprimentavam, o bispo com seu cajado tirava fotos com as pessoas e um cão tinha uma ceia de Natal.