Era uma simples ida à loteria, eu decidi sair de casa no meio da manhã. Imaginei que naquele horário não haveria fila. Sim, eu ainda tenho o hábito de frequentar lotéricas. Na minha frente um homem conversava sobre seus palpites, falando de algum dinheiro que estava acumulado.

Depois de sair, encontrei um senhor com um cartão de jogo na mão e pensei: as pessoas ainda brincam com a sorte em cartões? Para mim, fala sobre acreditar: belo gesto em tempos brasileiros tão difíceis...

Parti para a próxima parada, a papelaria, destino de compras, desde que eu calçava nº 32. Já havia feito aquele caminho algumas vezes, me confundi achando que era em uma rua e refiz o percurso até encontrá-la. Esse erro me trouxe outras andanças.

Andando a pé, se vê os novos empreendimentos no bairro (nunca vi inaugurarem tantas farmácias pelas redondezas, ainda bem que estão abrindo frutarias, também). Os prédios novos sendo construídos e os imóveis antigos muitas vezes sendo demolidos, atirados a própria (falta de) sorte ou virando alguma empresa, consultório ou escritório, ah se falassem o que diriam disso?

Dá para perceber as calçadas com buracos, tropeçar neles ou simplesmente ver um gato enroscar-se num deles e parar para ver a cena elástica. Também das calçadas, dá para sentir o cheiro das plantas nos edifícios por onde passa, recém-aguadas exalando aquele cheiro de mato com terra molhada no ar.

E ver as ruas que ainda são de paralelepípedo, lendas urbanas do século XXI. Nas calçadas, dá para ver também os operários descansando na hora do almoço, deitados na sombra de árvore ou as pessoas conversando sobre o jogo, ou o filme que está em cartaz no cinema.

Andando a pé, dá para sentir a vida passar bem de perto.