O ano era 2013, sexta-feira à noite, rodoviária de Belo Horizonte, destino: cidade do Rio de Janeiro. Uma noite de viagem, até a chegada. Eu já estava acostumada a passar noites na estrada, no percurso Recife-Salgueiro. Fui recebida por uma manhã de chuva, no antigo estado da Guanabara, nos fins da primavera. Na rodoviária, peguei um guia turístico e tomei um café.

Esperei dar a hora da do Frescão passar, o nome do ônibus era esse mesmo, curioso, o tal nome. Segui, para encontrar uma amiga dos tempos de colégio, que estava hospedada em Copacabana e fiquei lá com ela.
Entrei no quarto do hotel, mal se podia avistar o mar, chovia bastante. Tomei um banho e peguei um ônibus rumo ao centro da cidade. Primeira visita: Biblioteca Nacional. Fiquei fascinada, quando vi aquelas estantes antigas, que iam do teto ao chão, cheias de livros. Eu tão pequena, as estantes com seus livros: imensas, quanto saber naquelas páginas. Deparei-me com a mesinha onde Drummond sentava para ler e fiquei pensando quantos poemas deve ter escrito aqui?

Aquela região era o coração do Rio, ao lado estava o famoso Teatro Municipal, bem próximo também era o Museu de Belas Artes, onde contemplei quadros como Primeira missa no Brasil, de Vitor Meireles, que havia visto nos livros de História no primário, quando era uma criança. Uma pausa para o almoço e o destino foi o Centro Cultural Banco do Brasil, onde fiquei até a noite para uma peça de teatro, com Jandira Martini. Mal sabia eu, que lá, encontraria Lília Cabral e Marcos Caruso. Fui a um coquetel que foi oferecido depois da peça e comi uma coisa com um gosto estranho, acho que era caviar. Voltei para o hotel de taxi, rindo comigo mesma daquela aventura.

No domingo, foi o meu encontro mágico com o Rio, no Jardim Botânico. Não consigo descrever a sensação que tive naquele lugar. Os caminhos de terra pareciam levar a um lugar distante, onde não se podia alcançar, algo mágico: das coisas mais lindas que já vi, talvez porque quando menina escutava falarem sobre o Jardim Botânico na televisão, então essa cena, mexeu com a imaginação da criança adormecida que habita em mim.
Mas o Jardim Botânico ainda me revelaria outras surpresas. Enquanto almoçava naquela paisagem verde, vi George Israel, saxofonista do Kid Abelha, passando com a família. O Kid era minha banda preferida na adolescência.
Mais tarde, visitando o espaço Tom Jobim, que fica no Jardim Botânico, encontro com ele, não resisto e peço para seu filho bater uma foto.

As músicas de Tom que tocavam lá, os poemas escritos a punho por ele, as mensagens para o poetinha (Vinícius de Moraes): Coisas de um dia de felicidade, na passagem de cada hora.
Sigo do Jardim para a Lagoa Rodrigo de Freitas, a pé. Chovia, aluguei uma bicicleta e fui andar. A chuva ficou mais forte e então decidi sentar num dos bares da orla da Lagoa para pedir um chá de hortelã, uma boa companhia naquela paisagem.

A essa altura, passados dois dias, eu já queria ter ido ao Pão de Açúcar e ao Corcovado. Devido à chuva, acabei visitando esses lugares na segunda-feira. No ingresso para o Corcovado, um carimbo com as palavras: sem vista. Fui mesmo assim, o trem que leva ao Corcovado passava por um caminho com espécies da mata atlântica, árvores altas e pequenas flores coloridas, cobrindo o chão que encantaram minhas retinas. Só era possível enxergar o Cristo, quando as nuvens deixavam e as pessoas gritavam felizes, apressadas para tirar uma foto, no tempo permitido pelas nuvens.

Aquela viagem ainda teve samba com as amigas na Lapa, chá da tarde na Confeitaria Colombo, cenas do cotidiano em Copacabana: vizinhos que se cumprimentavam, por morarem lá há muitos anos e moradores que pareciam solitários, como um senhor que se aproximou de mim na parada de ônibus em busca de conversa.

Despedi-me do Rio, tirando foto com Drummond, em sua estátua e olhando a praia de Copacabana, tocava a música Love by Grace, um clássico da adolescência que integrava a trilha sonora de uma novela que se passava no Rio.

Voltei para Belo Horizonte com cartões postais, um calendário do Jardim Botânico, uma caixa de leques (gaufrettes) da Confeitaria Colombo e muitas histórias pululando na minha cabeça. Cenas de um Rio vivido na chuva, a água nos poros da pele. Os pés firmes, me levaram ao encontro com essas paisagens. Coisas que ainda vou lembrar por muitos anos, porque o Rio é lindo mesmo e dá vontade de voltar-sempre. Foi um Rio de chuva, quem sabe o próximo seja de sol, mas a chuva também deixa a paisagem bonita.

p.s: a câmera fotográfica não ajudou muito nas fotos, mas vale a emoção do momento.